Diante também de juros altos, Orceli Martins, presidente do Sindimetal, destaca resiliência de pequenas empresas e demandas por esgoto, ônibus e contorno rodoviário.
O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de material Elétrico de Ponta Grossa, Orceli Martins, discorrem em entrevista sobre um “apagão” crônico de mão de obra qualificada, com carência aguda de operadores de fresa, torno, corte a laser e automação, agravado pela preferência por trabalhos informais como Uber e pela relutância em investimento em qualificação, temendo perda de talentos para concorrentes. Martins aborda soluções urgentes em logística, como contorno rodoviário emergencial, duplicação de acessos e redução de gargalos nas rodovias que paralisam o escoamento e afastam transportadores. No Distrito Industrial, pleiteia mais ônibus com horários estendidos, a elevação do grau de ocupação do solo de 60% para 70% via Plano Diretor e rede de esgoto pela Sanepar para evitar fossas custosas.
Martins critica os obstáculos à automação devido a juros a 18% no BNDES e Finame, crédito caro com critérios rigorosos e diferenças tributárias interestaduais que minam a competitividade. Mesmo assim, o industrial é otimista para 2026, e prevê aumento no emprego em setores promissores de produtos finais para mercados amplos, com margens reguladas pelo nacional e alívio pós-eleições em taxas, desde que avanços em qualificação e infraestrutura impulsionem o potencial da região.
- Como o senhor avalia o desempenho do setor metalúrgico na região dos Campos Gerais em 2025, especialmente diante da queda da produção industrial no país? Ponta Grossa tem conseguido se destacar?
Orceli Martins: Ponta Grossa é um caso atípico, porque aqui temos alguns segmentos que se mantiveram estáveis. São as pequenas empresas, como funilarias que trabalham com calhas e estruturas metálicas; elas se mantiveram e acredito que até tiveram uma pequena melhora. Aquelas que trabalham com o mercado nacional, como é o meu caso, por exemplo, e com alguma exportação, também se mantiveram, embora com alguns altos e baixos durante o período. Tivemos eventos que atrapalharam um pouco, como as empresas que atuam a nível nacional ou internacional. Por exemplo, fabricantes de caminhões, começaram bem, mas no final do ano tiveram uma queda muito grande devido a vários fatores, principalmente a taxa de juros, que impactou bastante os financiamentos. Aqueles produtos de valor agregado alto e duráveis, que dependem de financiamento, sofreram bastante.
- Quais foram os principais desafios enfrentados pelas indústrias metalúrgicas da região em relação à escassez e custo das matérias-primas ao longo do último ano? Houve impacto na produção ou emprego?
Orceli Martins: A matéria-prima se manteve estável, sem muito aumento nem escassez. O maior desafio, e que tem se agravado cada vez mais, é a mão de obra. Temos um chamado “apagão” de mão de obra qualificada, não por falta de pessoas disponíveis, mas por fatores que as impedem de entrar no mercado formal, como benefícios de trabalhos informais, como Uber e similares. As pessoas não querem mais ficar vinculadas a uma empresa por oito horas diárias, de segunda a sexta, e optam por outros meios de ganho. A qualificação é um dos problemas principais. Enfrentamos dificuldades no Senai para formar turmas, e as próprias empresas, pela rotina do dia a dia, muitas vezes esquecem de investir nisso. Culturalmente, há receio de qualificar funcionários e perdê-los para concorrentes. É um desafio grande para os próximos anos, independente de crises governamentais ou mundiais: qualificação e retenção de mão de obra.
- Quais são as principais vagas com carência de qualificação para mandar uma obra hoje na área metalúrgica?
Orceli Martins: Os cargos técnicos estão em falta, especialmente em Ponta Grossa. Há carência de operadores de fresa, torno, corte a laser e máquinas que exigem maior tecnologia. Algumas empresas trabalham com robôs, embora não seja comum na nossa cidade, mas a automação em geral dificulta a qualificação. Operações manuais não são tão complexas; com treinamento adequado, uma pessoa começa a trabalhar em uma semana e já consegue produzir.
- A região dos Campos Gerais tem infraestrutura logística adequada para escoar a produção metalúrgica? Quais são os principais gargalos que ainda precisam ser superados?
Orceli Martins: Hoje, o nosso gargalo principal é a rodovia. Ponta Grossa está difícil; dia desses, para ir do trabalho para casa, demorei quase duas horas porque a rodovia estava totalmente parada, e os acessos, que são únicos, também. Isso inibe os transportadores: um que está em Curitiba prefere pegar frete local mais barato, ou até em Joinville, para não vir até aqui, pois pode perder o dia inteiro. A grande dificuldade logística é a rodovia. Precisamos de outros acessos e reduzir o corredor logístico para ter previsibilidade, até para ir a Curitiba. O contorno é essencial e emergencial. Além disso, a ampliação das paralelas, como a da Avenida Prime até o posto de combustível — com apenas mil metros, poderíamos fazer de um lado e do outro —, ajudaria muito.
- Em relação à estrutura do distrito industrial, o senhor tem algo a comentar?
Orceli Martins: Precisamos de mais ônibus e horários estendidos para que os trabalhadores não precisem sair muito cedo de casa ou chegar muito tarde. Estamos reivindicando isso há tempo aos órgãos públicos, incluindo a concessionária de transporte público. Outra questão em tramitação na Câmara é o aumento do grau de ocupação do solo, de 60% para 70%, pelo Plano Diretor, o que ajudaria empresas que precisam crescer. Além disso, é essencial discutir com a Sanepar a rede de esgoto no distrito; hoje, todas as empresas precisam fazer fossas enormes, com alto investimento.
- Como está o lobby com o poder público, governo do estado, Sanepar?
Orceli Martins: Está sendo trabalhado, mas não evolui como deveria. Questões internas com a Câmara avançam mais. Precisamos que as partes sentem para discutir, mas continuamos reivindicando.
- E nas indústrias do setor metalúrgico, como estão as questões de sustentabilidade, adaptações ambientais e transição energética?
Orceli Martins: Não evoluiu muito. Cada um fica focado nos problemas do dia a dia e não busca isso com prioridade. Na questão energética, temos dificuldade com a Copel, que não dá subsídios adequados. Recentemente, anunciaram desligamento para reparo em horário de trabalho, e nos preparamos com geradores, mas nem desligaram. É difícil o contato; falamos com o sistema, que decide impessoalmente. Mesmo no mercado livre de energia, dependemos da Copel para distribuição.
- Como está o cenário para as empresas da região atendidas pelo sindicato, considerando tarifas?
Orceli Martins: No metal, não fomos atingidos por tarifas. Inclusive, no aço, fomos beneficiados: com aumento de tarifas na exportação, o aço sobrou para o mercado interno, impedindo aumentos de preço. Não exportamos produção metal mecânica.
- E a adoção de tecnologia na indústria, quais são os obstáculos para automação?
Orceli Martins: Um obstáculo é o investimento. Com taxa de juros a 18% via BNDES ou Finame, é inviável, e não financia 100%. O retorno fica demorado, dificultando o acesso a componentes.
- Quais setores da metalurgia são mais promissores?
Orceli Martins: Os de produto final, que vendem em vários mercados internos e externos. Eles sofrem menos com demandas locais. Quem depende de uma região específica enfrenta mais variações.
- E o ambiente regulatório? O que ajuda ou atrapalha a competitividade?
Orceli Martins: A reforma trabalhista e tributária, que começa agora com alguns setores, ainda é incerta para o nosso segmento. A princípio, não altera muito, mas sofremos com diferenças tributárias por estados. No Paraná, há substituto tributário, forçando pagamento antecipado de impostos, enquanto outros estados não têm. Clientes vizinhos preferem fornecedores locais sem essas barreiras. Uma unificação nacional seria ideal.
- Como avalia a margem de lucro das metalúrgicas da região, considerando custos de insumos e energia? Está adequada ao país, ou mais prejudicada?
Orceli Martins: Quem trabalha nacionalmente adapta-se ao mercado, que regula preços não importa se aqui, no Nordeste ou em países vizinhos. Localmente, pode haver precificação diferente, mas o mercado dita.
- Como está o acesso a crédito?
Orceli Martins: Há crédito disponível nos bancos públicos e privados, mas as taxas estão altas e os critérios rigorosos. Quem pode pegar não quer pela taxa; quem quer, não consegue. Falta banco de fomento estadual para garantir. A ACIPG trouxe algumas possibilidades, mas sempre precisa de garantidor.
- Qual a expectativa para emprego no setor metalúrgico em 2026? Aumentar ou reduzir?
Orceli Martins: Na região, a tendência é aumentar, mas o apagão de mão de obra persiste em todas as áreas. Com expectativa de vida maior, entra mais gente jovem no mercado (a partir dos 18 anos), mas o desafio é se vão querer trabalhar formalmente. Há desemprego formal alto, mas poucas pessoas disponíveis.
- Para finalizar, quais suas expectativas como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos para 2026?
Orceli Martins: Sou sempre otimista, não só para nossa categoria, mas para o país, que é rico e forte, com povo trabalhador e ordeiro. Para nossa empresa, é continuar crescendo e apostando no país, especialmente na cidade, que tem potencial de avanço em vários segmentos. O metal deve ser beneficiado, principalmente quem produz bens populares nacionais. Exceto setores dependentes de financiamento, como caminhões, que sofrem com juros altos. Com as eleições no próximo ano, espero flexibilidade nas taxas, como é comum em períodos eleitorais. A expectativa é boa para melhorias.







